sábado, 19 de novembro de 2011

SOBRE A LIBERDADE - PROMETEU, LIBERTAD, EMÍLIA

Segundo uma das versões do mito de Prometeu, Zeus, depois de acorrentá-lo como punição por haver roubado para os homens o fogo dos deuses, ofereceu-lhe duas alternativas: continuar prisioneiro, sendo imortal; ou ser libertado, mas tornando-se mortal.
Prometeu escolheu a segunda opção, porque não vale a pena ser imortal e não ser livre.
Lembrei-me disso ao ler uma antologia das tiras de Mafalda, criação de Joaquín Salvador Lavado (Quino). O último personagem criado por ele, ainda durante a ditadura militar argentina, e que parece ser seu alter ego, é Libertad, uma menina minúscula e de personalidade forte.
Vale a pena conhecer as opiniões da pequenina Libertad, através de quem Quino expõe seu pensamento revolucionário, assim como Monteiro Lobato exprimia-se por meio da pequena e terrível Emília.
http://www.todohistorietas.com.ar/libertad.htm
http://www.prodema.ufpb.br/revistaartemis/numero3/arquivos/artigos/artigo_05.pdf






quinta-feira, 27 de outubro de 2011

AMO LO QUE NO TENGO

Ao comentar o conteúdo da sua obra "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada", o grande poeta chileno Pablo Neruda diz que é um livro doloroso, em que fala com aguda melancolia.
Pode haver resumo mais perfeito disso do que estes quatro versos (poema 18)? Isto é arte verdadeira.

No original:
Ya me creo olvidado como estas viejas anclas.
Son más tristes los muelles cuando atraca la tarde.
Se fatiga mi vida inútilmente hambrienta.
Amo lo que no tengo. Estás tú tan distante.

Em português:
Já me creio esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida, faminta inutilmente.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

Em Esperanto:
Ŝajne oni forgesas min kiel oldajn ankrojn.
Pli tristas la havenoj en vesper’ albordiĝa.
Laciĝas mia vivo senutile malsata.
Mi amas kion mi ne havas. Vi tiel distas.

domingo, 23 de outubro de 2011

A ESTAGNAÇÃO DO SER

Duas perguntas fundamentais:
Por que morremos?
Por que os relacionamentos se desfazem?
Embora pareçam questões tão diferentes, acredito que há pelo menos uma resposta comum.
Em algum momento da vida a maioria de nós vira uma chave mental e para, estaciona. O (a) infeliz passa a repetir sempre a mesma conversa, as mesmas histórias, deixa de se atualizar, de buscar novas experiências e conhecimentos, não faz novas reflexões. Em suma, acomoda-se e torna-se insuportável, para os outros, em particular, e para o mundo, no geral.
Então os relacionamentos acabam (mesmo que a separação não ocorra formalmente), e um dia a morte chega e lança o ser estagnado em outra dimensão, para que com esse choque desperte e volte a se tornar alguém interessante.

domingo, 18 de setembro de 2011

A ÁRVORE DA VIDA - FILME

Não recomendo a ninguém o filme “A Árvore da Vida” (direção: Terence Malick; elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain), porque tive vontade de sair antes do fim, de tão entediante. Saí com a sensação de que foi uma tentativa desastrada de americano fazer cinema cult iraniano. Foram duas horas das mais arrastadas da minha vida. Parecia que eu estava vendo um desses power point que chegam todo dia pela internet, mas um power point imenso, sem mouse para clicar e acelerar a apresentação.
Acontece que o filme ganhou a palma de ouro em Cannes, então eu posso estar errado...

terça-feira, 19 de julho de 2011

TAGORE, NERUDA E SUAS AMADAS

Rabindranath Tagore escreveu, no poema 30 de O Jardineiro:

"És a nuvem do entardecer flutuando no céu dos meus sonhos,
e os meus anseios de amor te pintam com as mais variadas formas e cores.
Tu me pertences, minha amada,
e vives em meus sonhos infinitos."

Pablo Neruda fez uma paráfrase desses versos, no poema 30 de Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada:

"No meu céu, ao crespúsculo, és igual a uma nuvem,
e tua cor e forma são como eu as disponho.
És minha, muito minha, mulher de lábios doces,
e vivem na tua vida meus infinitos sonhos."

Ambos amam e sonham infinitamente, mas a diferença está em como cada um expressa a relação entre a vida da amada e dos seus sonhos. Vale a pena ler e comparar a criação poética desses dois artistas geniais.

domingo, 10 de julho de 2011

VIDA AUTÊNTICA

Viver de modo autêntico é algo tão desejável quanto raro, porque o ser humano preza muito a segurança, e viver autenticamente traz o risco de se percorrerem caminhos novos, desconhecidos.
Essa autenticidade não existe quando só agimos de acordo com o que os outros esperam de nós, quando abdicamos de nossos sonhos para não sairmos da zona de conforto em que nos sentimos aprovados pelo mundo.
"E se decidíssemos não fazer as coisas que se espera que façamos?" Joseph Campbell faz essa pergunta e a responde citando Maslow e Jesus. Há o risco de perda de ganhos listados por Maslow, como o prestígio, as relações sociais e a própria sobrevivência. Por outro lado, sacrificar esses valores pela paixão de lutar por algo que traga intensidade à nossa vida, ainda que a torne mais curta, nos aproxima do pensamento de Jesus: "Aquele que perde a sua vida irá encontrá-la."

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Uma pessoa que eu gostaria de ter conhecido

Nascido em 1842 e morto em 1910, o norte-americano William James notabilizou-se pela diversidade de interesses. Era fluente em francês e alemão. Tinha inclinação artística, mas decidiu dedicar-se à ciência. Formou-se em medicina, mas só atuou como professor de fisiologia e anatomia. Estudou teologia. Lecionou e escreveu livros sobre psicologia e filosofia. Participou de uma expedição científica no Rio Amazonas.
Interessei-me por ele ao ver um pensamento seu citado no livro "Mito e Corpo", de Stanley Keleman. Disse James que que há pessoas que nascem uma vez e pessoas que nascem duas vezes. Aquelas que nascem uma única vez podem ser muito boas, todavia são pessoas muito pouco interessantes. As que nascem duas vezes é que realmente compreendem alguma coisa e se reconstroem a si mesmas, partindo do chão para um ponto maior.
Acredito na reencarnação, na inevitabilidade do retorno da alma em outros corpos, mas de fato é importante também renascer no mesmo corpo, mental, intelectual, espiritual e culturalmente.

domingo, 5 de junho de 2011

Por que Palocci não fica indignado

O homem médio inocente, quando acusado injustamente, se indigna. Manter-se sereno nessa situação é para poucos, como Sócrates, que aceitou beber a cicuta e morrer, mesmo intimamente convencido de que nenhum mal fizera, de que sua vida fora dedicada a despertar os atenienses para a consciência da própria ignorância.
O homem médio acusado que tenta demonstrar serenidade, como Palocci, com isso revela sua culpa, porque, não sendo inocente, não consegue se indignar. São assim os homens públicos brasileiros.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O velho problema do destino

Como a maioria dos filmes americanos, "Os agentes do destino" (Matt Damon/Emily Blunt) serve mais para distrair do que para provocar reflexão, mas de qualquer forma levanta a velha questão destino x livre-arbítrio.
Movemo-nos com nossos desejos e projetos dentro de um plano maior, superior, inacessível à nossa compreensão. É difícil saber até que ponto o agir segundo nossa própria vontade encontra aprovação dessa vontade universal, ou até onde vai nosso poder de alterar o todo e fazer nosso próprio destino.

sábado, 7 de maio de 2011

Lembrando Sadako

As notícias sobre os problemas nas usinas nucleares do Japão ganharam para mim hoje um novo significado, quando abri um e-mail enviado por minha amiga Tiyoe, sobre uma menina japonesa que viu o desabrochar da rosa de Hiroshima, mas não morreu na hora. Por causa da radiação, ela teve leucemia e morreu poucos anos depois, acreditando que se salvaria pelo origami, fazendo mil tsurus (garças) de papel.
Lembrei-me que li essa história quando criança. O nome do livro era Sadako quer viver, da coleção Jovens do Mundo Todo, escrito por Karl Bruckner em 1963. Acho que toda criança tem o direito de ler ou ouvir a história da menina Sadako.

domingo, 1 de maio de 2011

Ainda o amor

"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal." (Friedrich Nietzsche - 1844-1900).
Talvez seja impossível saber exatamente o que pensava o filósofo alemão ao enunciar essa máxima. Será que ele imaginava o poder de consolação dessa ideia para os que muito amam e que se debatem constantemente entre a culpa e a auto-justificação?



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes

Sólo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.
Esse é o verso original, parte da canção "Volver a los diecisiete", de Violeta Parra (1917-1967), a grande artista chilena, que viveu e amou intensamente, provavelmente sem nunca conseguir entender perfeitamente o amor, já que se suicidou.
O amor é tudo, nada mais do que amar importa na vida. O amor contém toda a ciência, e quem ama verdadeiramente não deixa jamais de ser inocente. Não há culpa no amor.
É impossível não sonhar aos dezessete. Os ideais e as revoltas são superlativas nessa idade em que o amor é extrema potência.
http://www.youtube.com/watch?v=BcID17wcZHU